Ciência

Rover Curiosity identifica moléculas orgânicas de 3,5 bilhões de anos na cratera Gale em Marte

21 de Abril de 2026 às 18:07

O rover Curiosity da NASA detectou na cratera Gale, em Marte, moléculas orgânicas de 3,5 bilhões de anos, incluindo uma substância nitrogenada. A preservação ocorreu devido às argilas da região, que protegeram os compostos da radiação e de variações térmicas. A origem do material ainda é incerta, podendo ser biológica, geológica ou proveniente de meteoritos

O rover Curiosity, da NASA, identificou moléculas orgânicas preservadas há aproximadamente 3,5 bilhões de anos na cratera Gale, em Marte. A descoberta, realizada em uma bacia rica em argilas, revelou a presença de uma molécula nitrogenada com estrutura semelhante a substâncias que originaram o DNA na Terra primitiva, marca inédita em detecções na superfície do planeta vermelho.

O experimento ocorreu em 2020, na região de Glen Torridon. Para a análise, o robô utilizou o reagente químico TMAH para fragmentar moléculas orgânicas maiores, processo que demandou planejamento rigoroso devido à quantidade limitada de insumos a bordo. Além da molécula nitrogenada, foi detectado um composto químico tipicamente transportado por meteoritos, material que se acredita ter auxiliado no surgimento da vida na Terra.

A sobrevivência desses compostos por bilhões de anos é atípica, dado que a radiação cósmica, a atmosfera rareféta e as variações térmicas de Marte costumam destruir moléculas orgânicas em escalas de milhões de anos. A preservação foi possível graças às argilas da cratera Gale, que atuaram como escudos protetores, isolando as substâncias da degradação química e da radiação.

Amy Williams, professora de ciências geológicas da Universidade da Flórida e líder do estudo publicado na Nature Communications, afirmou que o achado comprova a preservação de matéria orgânica antiga no planeta. Embora a descoberta não prove a existência de vida, ela altera a perspectiva da astrobiologia ao confirmar que Marte consegue guardar pistas biológicas, deslocando o desafio científico para o desenvolvimento de instrumentos capazes de interpretá-las.

Atualmente, os dados não permitem distinguir se a origem dos compostos é biológica, geológica ou proveniente de meteoritos. Para solucionar essa ambiguidade, é necessária a análise de amostras em laboratórios terrestres, que possuem a precisão isotópica e estrutural impossível de ser replicada por equipamentos embarcados em rovers.

A evidência de que Marte e a Terra compartilharam as mesmas matérias-primas químicas em seus primórdios reforça a conexão entre os dois planetas. Enquanto a Terra evoluiu para a biologia, Marte tornou-se um ambiente hostil. O resultado do Curiosity indica que, se houve vida no período em que o planeta era habitável, as evidências podem estar preservadas na superfície ou subsuperfície.

Como etapa seguinte, a NASA e a Agência Espacial Europeia planejam missões de retorno de amostras para as próximas décadas. Enquanto isso, o Curiosity segue operando na cratera Gale e o rover Perseverance, em atividade desde 2021 na cratera Jezero, continua coletando e selando amostras para futuras análises definitivas na Terra.

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