Estudo indica que a perda de massa óssea no espaço ocorre em poucos dias
Estudo com oito tripulantes das missões Polaris Dawn e Fram2 identificou perda de massa óssea na tíbia após três a cinco dias em microgravidade. Homens apresentaram maior deterioração trabecular, enquanto mulheres tiveram maior aumento na porosidade cortical. A análise por tomografia computadorizada indicou que a perda óssea se concentra em estruturas que sustentam carga
A exposição à microgravidade provoca a perda de massa óssea em um intervalo de tempo significativamente menor do que se acreditava anteriormente. Um estudo recente revelou que tripulantes das missões Polaris Dawn e Fram2, da SpaceX, apresentaram sinais mensuráveis de deterioração na tíbia após permanecerem no espaço por apenas três a cinco dias.
Para chegar a esses resultados, os pesquisadores utilizaram a tomografia computadorizada quantitativa periférica de alta resolução (HR-pQCT). Diferente da densitometria óssea tradicional, essa técnica permite a análise tridimensional da microarquitetura interna do osso, avaliando tanto os compartimentos cortical quanto trabecular. Os exames realizados na tíbia mostraram reduções na densidade óssea total e trabecular, com a diminuição da espessura das trabéculas e o aumento do espaço entre elas. Em contrapartida, o rádio distal, osso do antebraço que não suporta o peso do corpo, não sofreu alterações relevantes, o que reforça a tese de que a perda óssea em órbita se concentra em estruturas que normalmente sustentam carga.
A análise dos oito tripulantes — quatro homens e quatro mulheres — revelou disparidades marcantes entre os sexos. Os homens apresentaram uma deterioração trabecular mais que o dobro da observada nas mulheres, com perda média de densidade óssea de 0,95% contra 0,24%. Além disso, a carga de ruptura, que indica a resistência a fraturas, diminuiu nos homens e teve um leve aumento nas mulheres. Já o grupo feminino apresentou maior vulnerabilidade na camada externa do osso, com um aumento de 8,66% na porosidade cortical, comparado a 3,37% nos homens.
Essas diferenças podem estar relacionadas ao fato de o esqueleto masculino ser tipicamente mais denso e suportar maior peso, tornando-se mais responsivo à ausência de estímulo mecânico. No entanto, a amostra apresentou variações: os homens eram, em média, 15 anos mais velhos e 14,9 quilos mais pesados que as mulheres, fatores que dificultam a separação total entre o efeito do sexo e o da idade.
As missões tiveram dinâmicas distintas. A equipe da Polaris Dawn operou em órbita elíptica de alta altitude entre 10 e 15 de setembro de 2024, totalizando 118 horas e 13 minutos. Já a missão Fram2, ocorrida entre março e abril de 2025 em órbita polar, durou aproximadamente 86 horas e 33 minutos. Houve também uma diferença drástica na exposição à radiação: 1.378 mrem na Polaris Dawn contra 149 mrem na Fram2. A deterioração óssea foi ligeiramente mais acentuada no grupo da Polaris Dawn, sugerindo que a combinação de maior tempo em microgravidade e radiação elevada pode ter amplificado o processo.
A validade dos dados foi reforçada por um detalhe metodológico da missão Polaris Dawn. Como o lançamento foi adiado de 2022 para 2024, os tripulantes realizaram dois exames de tomografia na Terra com dois anos de intervalo. Durante esse período terrestre, não houve alteração significativa na densidade ou resistência óssea. Contudo, a variação mediana na densidade trabecular, que era de +0,28% antes do voo, caiu para -1,41% após o retorno, comprovando que a perda óssea foi causada pela microgravidade e não pelo envelhecimento natural.
A descoberta altera a abordagem para futuras viagens espaciais, como missões a Marte. Como a perda óssea inicia-se em dias, missões curtas podem servir de campo de teste para contramedidas. Durante os voos, a equipe da Fram2 realizou 30 minutos de exercícios com faixas de resistência, enquanto a Polaris Dawn participou de um experimento de restrição de fluxo sanguíneo sem exercícios. O estudo sugere que protocolos futuros combinem a tomografia com exercícios em apenas um dos membros para permitir comparações internas no mesmo indivíduo. Apesar dos achados, os pesquisadores ressaltam que o tamanho reduzido da amostra exige estudos futuros com grupos maiores para a confirmação definitiva dos padrões.