Ciência

Expedição recupera uma das maiores sequências de rochas do manto no Mar Tirreno

14 de Abril de 2026 às 06:06

A Expedição 402 do International Ocean Discovery Program recuperou, no Mar Tirreno, a segunda maior sequência contínua de rochas do manto obtida por perfuração. A amostra, coletada a mais de 1.200 metros abaixo do leito marinho, revelou um manto fértil com baixa produção magmática. O estudo contou com a participação da Louisiana State University

A Expedição 402 do International Ocean Discovery Program (IODP) obteve uma das maiores sequências contínuas de rochas do manto já recuperadas por perfuração oceânica. A operação ocorreu no fundo do Mar Tirreno, no Mediterrâneo central, em uma área situada entre a Córsega e a Itália. Os resultados, publicados em 2025 em relatórios técnicos e periódicos científicos, contaram com a participação direta da Louisiana State University (LSU).

A equipe de pesquisadores conseguiu perfurar mais de 1.200 metros abaixo do leito marinho, atravessando a crosta oceânica até atingir o manto superior. Devido ao volume e à integridade do material, a amostra foi classificada como a segunda maior seção de manto já obtida por perfuração científica. A relevância do achado reside na raridade do acesso direto a essa camada terrestre, que geralmente é estudada apenas por fragmentos vulcânicos ou ondas sísmicas.

As análises geoquímicas e petrográficas revelaram que o manto da região é "fértil", possuindo composição mineralógica capaz de gerar magma sob condições adequadas de temperatura e pressão. Foram identificados lherzolitos e harzburgitos parcialmente refertilizados, o que indica um processo complexo de reprocessamento e fusão do material. No entanto, observou-se que, apesar desse potencial, a região não produziu magma na escala esperada.

Essa descoberta contraria os modelos tradicionais de formação da crosta oceânica. Normalmente, quando placas tectônicas se afastam, ocorre a fusão por descompressão, gerando grandes volumes de magma. No Mar Tirreno, que é uma bacia de retroarco formada há cerca de 10 a 12 milhões de anos (período Mioceno) pela subducção da placa africana sob a euroasiática, o comportamento foi diferente: a região se caracteriza como um rifte com baixa produção magmática (*magma-poor rift*).

A heterogeneidade das amostras sugere que a formação da crosta no local é influenciada por múltiplos eventos, como a interação com materiais de subducção, refertilização por fluidos e episódios de fusão parcial. O estudo confirma que o manto terrestre não é uma camada uniforme, mas apresenta variações composicionais regionais significativas.

Esses dados indicam que a extensão tectônica não provoca a mesma resposta do manto em todos os contextos, exigindo que os modelos geológicos incorporem variáveis como fluxo de calor e dinâmica tectônica regional. A evidência de que um manto fértil pode resultar em baixa produção de magma refina a compreensão sobre a evolução interna da Terra e a formação de continentes e vulcões. Além disso, o aprofundamento desses processos contribui para a elaboração de modelos mais precisos sobre riscos geológicos, como terremotos, em regiões tectonicamente ativas como o Mediterrâneo.

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