Mesentério é identificado como o octogésimo órgão do corpo humano
A revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology publicou, no fim de 2016, a classificação do mesentério como o 80º órgão humano. O trabalho de J. Calvin Coffey e Peter O’Leary demonstrou que a estrutura é única e contínua. A membrana prende o intestino ao abdômen e viabiliza o fluxo sanguíneo
O mesentério foi oficialmente reconhecido como o 80º órgão do corpo humano, alterando a compreensão anatômica estabelecida há mais de um século. A reclassificação ocorreu após a publicação de um estudo no final de 2016 na revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology, que refutou a descrição clássica da anatomia ao provar que a estrutura não é fragmentada, mas sim contínua e única.
A pesquisa foi conduzida pelo cirurgião J. Calvin Coffey, professor da Universidade de Limerick e do University Hospital Limerick, com a colaboração de Peter O’Leary. Entre 2012 e 2016, a equipe coletou evidências microscópicas que demonstraram que a membrana se estende do início ao fim do intestino, assemelhando-se a um leque aberto. Até então, anatomistas tratavam o mesentério como um conjunto de fragmentos avulsos do peritônio, sem conexão entre si, o que excluía a possibilidade de ser um órgão independente.
Anatomicamente, o mesentério consiste em uma dobra dupla do peritônio, a membrana que reveste internamente a cavidade abdominal. Essa estrutura é responsável por fixar o intestino à parede do abdômen, manter as vísceras digestivas no lugar e permitir a irrigação sanguínea.
Apesar de estar visível em todas as cirurgias abdominais realizadas no mundo, o mesentério permaneceu invisível como órgão por quatro séculos. Leonardo da Vinci já havia registrado a estrutura em seus desenhos de anatomia humana, descrevendo a conexão entre o intestino e a parede abdominal, porém não a classificou como um órgão. Essa interpretação foi seguida por gerações subsequentes de médicos e anatomistas.
A confirmação científica, cujos primeiros resultados surgiram em 2012 e foram finalizados em 2016, provocou a atualização de livros e currículos de medicina globalmente. Para Coffey, a definição da estrutura agora permite que a ciência avance para a compreensão da função biológica do órgão. O mapeamento dessas funções é essencial para a categorização de doenças digestivas e a identificação de anomalias abdominais que atualmente não possuem explicação, além de possibilitar o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas menos invasivas.
A trajetória de reconhecimento do mesentério exemplifica como a revisão de conceitos científicos transforma a prática clínica, processo semelhante ao ocorrido com a criação de novos anticorpos para bloquear vírus. Outros tecidos também demandaram décadas para serem compreendidos, como a descoberta recente de que microplásticos invadiram o cérebro humano, região anteriormente considerada protegida.
Atualmente, a principal lacuna científica é que a função fisiológica real do mesentério permanece em grande parte desconhecida, limitando-se ao conhecimento de que ele sustenta o intestino. A comunidade científica aguarda novos dados do grupo de pesquisa da Universidade de Limerick para detalhar processos específicos de funcionamento do órgão.