Uso de carvão na indústria química da China ultrapassa o consumo anual americano do mineral
A indústria química da China elevou o consumo de carvão para 276 milhões de toneladas em 2024, superando em 2025 o volume anual total dos Estados Unidos. O setor utiliza o processo Fischer-Tropsch para produzir plásticos e fertilizantes, visando 85% de autonomia em materiais avançados até 2030
A indústria química da China elevou o consumo de carvão para a produção de plásticos e petroquímicos de 155 milhões de toneladas em 2020 para 276 milhões em 2024. Em 2025, um novo avanço de 15% fez com que o volume de mineral utilizado apenas por esse setor superasse a soma de todo o carvão queimado anualmente nos Estados Unidos. O crescimento manteve a tendência no primeiro semestre de 2025, com a utilização do recurso no setor químico avançando 20% na comparação anual.
Esse movimento é sustentado por redirecionamentos financeiros e expansões físicas. A China Shenhua Energy, principal mineradora do país, elevou os recursos destinados à conversão química de 2,5 bilhões para 4,1 bilhões de yuans com projeção até 2026, apesar de ter reduzido seu orçamento geral em 16%. Em Xinjiang, está em construção a maior unidade do mundo para a transformação de carvão em etilenoglicol, com capacidade produtiva projetada de 2,4 milhões de toneladas por ano.
A base técnica da operação é o processo Fischer-Tropsch, técnica de síntese desenvolvida na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Cientistas da Universidade de Pequim viabilizaram a escala industrial do método ao introduzir brometo de metila em concentração de cinco partes por milhão no processo catalítico. A modificação bloqueou a reação que gera dióxido de carbono, reduzindo a taxa de emissão de aproximadamente 30% para menos de 1%. A técnica converte o gás de síntese do carvão em olefinas, insumos básicos para a fabricação de plásticos. Pesquisas da ACS Sustainable Chemistry & Engineering buscam agora aplicar o mesmo princípio para reciclar resíduos plásticos, transformando-os novamente em gás de síntese e olefinas leves.
A estratégia de autonomia industrial foi estabelecida por Xi Jinping como diretriz nacional ainda durante o primeiro governo Trump. A eficácia do modelo foi testada durante o conflito armado no Irã, que elevou os preços globais do petróleo. Enquanto a Rongsheng Petrochemical, grande refinaria asiática, perdeu 27% de seu valor de mercado, a Ningxia Baofeng Energy, focada na conversão química de minerais, registrou alta de 30% em suas ações.
O impacto dessa independência é evidente no setor de fertilizantes, onde 80% do adubo nitrogenado produzido na China — volume que representa um terço da oferta global — é fabricado com carvão. O custo final desse produto é inferior à metade do valor praticado no mercado internacional.
No cenário externo, a superprodução de químicos e plásticos resultou em um superávit comercial de US$ 1,2 trilhão em 2025. O MERICS aponta que a União Europeia perde cerca de 500 vagas industriais por dia devido à incapacidade de competir com os preços chineses, que são sustentados por subsídios governamentais e linhas de crédito protegidas.
A expansão petroquímica baseada em carvão está integrada ao 15º Plano Quinquenal (2026-2030). O documento estabelece a meta de reduzir a intensidade de carbono em 17%, mas permite que as emissões reais do país subam entre 3% e 6% no período. O plano substitui a redução gradual do uso de carvão pela estabilização do consumo, autorizando que projetos químicos previstos até 2029 adicionem 2% às emissões anuais de CO₂. O objetivo final é que a China atinja 85% de autonomia em químicos e materiais avançados até 2030, minimizando a dependência de petróleo e derivados estrangeiros.