Idosos utilizam exoesqueletos robóticos para recuperar pertences em prédios atingidos por incêndio em Hong Kong
Entre 20 de abril e 4 de maio, moradores do complexo Wang Fuk Court, em Hong Kong, recuperam bens após incêndio. A ONG AidVengers Federation cede exoesqueletos da Hypershell para que idosos subam as escadas de prédios sem elevadores. A retirada de objetos é limitada a três horas por família e o uso da tecnologia depende de testes de coordenação
Sobreviventes do incêndio que devastou o complexo habitacional Wang Fuk Court, no distrito de Tai Po, ao norte de Hong Kong, iniciam entre 20 de abril e 4 de maio a operação para recuperar pertences em seus antigos apartamentos. Devido à inoperância dos elevadores nos prédios de 31 andares, diversos moradores, especialmente idosos, estão utilizando exoesqueletos robóticos para conseguir subir as escadas.
O desastre ocorreu no final de novembro do ano passado, resultando em um dos episódios mais letais da história de Hong Kong. O fogo consumiu sete torres do conjunto, matou 168 pessoas e desalojou mais de 4 mil residentes, que passaram a viver em albergues e acomodações improvisadas. O complexo, construído na década de 1980, abrigava 4.600 pessoas, sendo que mais de um terço da população tinha mais de 65 anos. A tragédia foi agravada pela combinação de uma infraestrutura de combate a incêndio defasada e a vulnerabilidade dos moradores idosos.
Para viabilizar o retorno, a ONG AidVengers Federation disponibilizou pernas robóticas fabricadas pela empresa de Xangai Hypershell. O equipamento se acopla aos membros inferiores e oferece assistência motorizada, compensando a perda de força muscular, dores articulares e dificuldades respiratórias. A tecnologia é fundamental para que idosos consigam subir mais de dez andares a pé.
O acesso aos apartamentos, no entanto, depende de um processo de habilitação. A ONG promove sessões de treinamento e a autorização para o uso do exoesqueleto exige a aprovação em testes de coordenação e força. Atualmente, a taxa de aprovação é de 70%, o que deixa cerca de 30% dos sobreviventes dependentes da ajuda de voluntários ou familiares mais jovens para acessar seus antigos lares.
Entre os que treinam para a subida está Fanny Mok, de 59 anos, que residiu no 13º andar por três décadas. Ela relata que a falta de força, as dores nos joelhos e a falta de ar tornam o equipamento indispensável para completar o trajeto. De forma semelhante, Betty Ho, de 61 anos, prepara-se para subir ao 15º andar, onde viveu por 35 anos, com o objetivo de recuperar álbuns de fotos e dinheiro guardado.
A operação impõe um limite rigoroso de três horas para que cada família recolha seus objetos. Esse intervalo de tempo gera uma pressão emocional significativa, pois os moradores precisam selecionar e embalar itens de valor sentimental, documentos e dinheiro em meio aos escombros de locais onde viveram por décadas. Para residentes como Betty Ho, a tarefa de desapegar-se de uma vida inteira em um período tão curto é considerada praticamente impossível.
Após quatro meses de incerteza sobre a sobrevivência de seus bens diante do fogo e da água utilizada no combate às chamas, o uso da tecnologia de Xangai representa a única oportunidade de recuperação de vestígios pessoais para centenas de sobreviventes do Wang Fuk Court.