Ciência

Agência Espacial Europeia utiliza duas espaçonaves para criar eclipses artificiais e estudar a coroa solar

20 de Abril de 2026 às 15:19

A Agência Espacial Europeia tornou operacional a missão Proba-3, que utiliza duas espaçonaves sincronizadas para criar eclipses solares artificiais. O sistema permite a observação contínua da coroa solar por meio do instrumento ASPIICS, registrando 57 eclipses e mais de 250 horas de imagens até abril de 2026

A Agência Espacial Europeia (ESA) tornou operacional a missão Proba-3, que utiliza duas espaçonaves sincronizadas para atuar como um único observatório de precisão. O objetivo central do sistema é a criação de eclipses solares artificiais, permitindo a observação contínua e controlada da coroa solar, superando a limitação de depender de eclipses naturais raros e breves para estudar a atmosfera externa do Sol.

A operação resolve um problema histórico da heliofísica: o contraste extremo entre a luminosidade do disco solar e a fraqueza da luz emitida pela coroa. Para revelar fluxos de plasma e estruturas delicadas na borda solar, a luz direta precisa ser bloqueada. Para isso, a missão utiliza a nave Occulter, que possui um disco de ocultação de 1,4 metro, e a nave Coronagraph, que carrega o instrumento científico ASPIICS. Quando alinhadas a uma distância de aproximadamente 150 metros, a Occulter projeta uma sombra sobre a abertura óptica da Coronagraph, funcionando como um coronógrafo distribuído no espaço.

As duas plataformas operam de forma autônoma e contínua para manter a geometria necessária, comportando-se como uma estrutura rígida apesar da separação física. Em cada órbita de 19,7 horas, cerca de cinco a seis horas são dedicadas ao voo em formação precisa para a geração do eclipse. Devido à proximidade entre as naves sem conexão física, o sistema conta com mecanismos automáticos de segurança para evitar colisões.

O instrumento ASPIICS foca na coroa interna, entre 1,1 e 3 raios solares, preenchendo uma lacuna de observação entre instrumentos de curto e longo alcance. Nessa região, concentram-se processos de ejeções de massa coronal e vento solar, que impactam o clima espacial e podem interferir em redes elétricas, satélites, navegação e comunicações na Terra. A investigação busca compreender por que a coroa atinge temperaturas acima de um milhão de graus Celsius e como o plasma é acelerado antes de se expandir pelo espaço interplanetário.

A transição para a fase operacional ocorreu em 2025, com a obtenção do primeiro eclipse artificial e as primeiras imagens da coroa. Até abril de 2026, a missão registrou 57 eclipses e acumulou mais de 250 horas de observação em alta resolução. Os dados iniciais revelaram que estruturas do vento solar lento se movem com velocidades superiores às previstas, resultado da capacidade de observação contínua do sistema.

Além do ASPIICS, a Proba-3 integra o radiômetro DARA, para medir a irradiância solar total, e o 3DEES, voltado ao estudo de elétrons energéticos nos cinturões de radiação. A missão serve como um laboratório de autonomia embarcada e navegação relativa, validando a construção de infraestruturas flexíveis em voo. Essa lógica de distribuir funções entre veículos independentes poderá ser aplicada em futuros projetos de reabastecimento, serviços em órbita, encontros autônomos e montagem de observatórios modulares.

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