Cinco dias de simulação de microgravidade causam descondicionamento multissistêmico agudo em adultos saudáveis
Estudo publicado na revista Communications Medicine indica que cinco dias de simulação de microgravidade causam descondicionamento multissistêmico em adultos saudáveis. A pesquisa com 37 voluntários da Agência Espacial Europeia identificou alterações cardiovasculares, metabólicas e ósseas, com impactos mais acentuados na tolerância ortostática e sensibilidade à insulina das mulheres
Um experimento de simulação de microgravidade em solo revelou que apenas cinco dias de exposição a essa condição são suficientes para provocar um descondicionamento multissistêmico agudo em adultos saudáveis. O estudo, publicado na revista *Communications Medicine*, demonstrou que a ausência de carga mecânica habitual desencadeia uma reorganização rápida do organismo, afetando simultaneamente os sistemas cardiovascular, metabólico e de regulação de fluidos.
A pesquisa utilizou a técnica de *dry immersion*, na qual os voluntários permanecem deitados em estruturas semelhantes a banheiras, suspensos por um tecido impermeável. Esse método impede o contato direto com a água, mas mantém o corpo parcialmente imerso, reproduzindo a hipocinesia, a redistribuição de fluidos e a falta de apoio físico típicas do ambiente espacial. A vantagem desse modelo é permitir a observação precisa do comportamento biológico sem a complexidade de missões orbitais.
Os dados foram consolidados a partir de duas campanhas da Agência Espacial Europeia (ESA), denominadas VIVALDI-1 e VIVALDI-2. Ao todo, 37 voluntários — 19 homens e 18 mulheres — foram monitorados antes, durante e após o protocolo. A avaliação incluiu a análise de hormônios, capacidade aeróbica, força muscular, função venosa, composição corporal, metabolismo da glicose, perfil lipídico, remodelação óssea e respostas vasculares.
Um dos principais achados foi a queda da tolerância ortostática, que é a capacidade do corpo de manter a circulação adequada ao ficar em pé sem apresentar tonturas ou queda de pressão. Após os cinco dias de imersão, essa instabilidade circulatória tornou-se evidente, com um impacto mais acentuado no grupo feminino.
Embora homens e mulheres tenham apresentado um padrão geral de alterações semelhante, a análise por sexo revelou disparidades específicas. As mulheres registraram maior elevação do índice aterogênico plasmático, aumento de marcadores de reabsorção óssea e sinais de redução da sensibilidade à insulina. Tais evidências sugerem que futuras estratégias preventivas para a readaptação à gravidade terrestre podem precisar de ajustes baseados em características biológicas distintas.
Os resultados reforçam que a gravidade é um elemento essencial para a manutenção do equilíbrio fisiológico, influenciando funções automáticas do cotidiano. A redução desse estímulo provoca ajustes rápidos que comprometem a estabilidade postural e a saúde óssea. Além de auxiliar no planejamento de missões espaciais, o estudo contribui para a compreensão de quadros clínicos de imobilidade prolongada na Terra, consolidando a *dry immersion* como ferramenta para antecipar riscos e testar contramedidas fisiológicas.