Ciência

Cinco dias de simulação de microgravidade causam descondicionamento multissistêmico agudo em adultos saudáveis

20 de Abril de 2026 às 15:19

Estudo publicado na revista Communications Medicine indica que cinco dias de simulação de microgravidade causam descondicionamento multissistêmico em adultos saudáveis. A pesquisa com 37 voluntários da Agência Espacial Europeia identificou alterações cardiovasculares, metabólicas e ósseas, com impactos mais acentuados na tolerância ortostática e sensibilidade à insulina das mulheres

Um experimento de simulação de microgravidade em solo revelou que apenas cinco dias de exposição a essa condição são suficientes para provocar um descondicionamento multissistêmico agudo em adultos saudáveis. O estudo, publicado na revista *Communications Medicine*, demonstrou que a ausência de carga mecânica habitual desencadeia uma reorganização rápida do organismo, afetando simultaneamente os sistemas cardiovascular, metabólico e de regulação de fluidos.

A pesquisa utilizou a técnica de *dry immersion*, na qual os voluntários permanecem deitados em estruturas semelhantes a banheiras, suspensos por um tecido impermeável. Esse método impede o contato direto com a água, mas mantém o corpo parcialmente imerso, reproduzindo a hipocinesia, a redistribuição de fluidos e a falta de apoio físico típicas do ambiente espacial. A vantagem desse modelo é permitir a observação precisa do comportamento biológico sem a complexidade de missões orbitais.

Os dados foram consolidados a partir de duas campanhas da Agência Espacial Europeia (ESA), denominadas VIVALDI-1 e VIVALDI-2. Ao todo, 37 voluntários — 19 homens e 18 mulheres — foram monitorados antes, durante e após o protocolo. A avaliação incluiu a análise de hormônios, capacidade aeróbica, força muscular, função venosa, composição corporal, metabolismo da glicose, perfil lipídico, remodelação óssea e respostas vasculares.

Um dos principais achados foi a queda da tolerância ortostática, que é a capacidade do corpo de manter a circulação adequada ao ficar em pé sem apresentar tonturas ou queda de pressão. Após os cinco dias de imersão, essa instabilidade circulatória tornou-se evidente, com um impacto mais acentuado no grupo feminino.

Embora homens e mulheres tenham apresentado um padrão geral de alterações semelhante, a análise por sexo revelou disparidades específicas. As mulheres registraram maior elevação do índice aterogênico plasmático, aumento de marcadores de reabsorção óssea e sinais de redução da sensibilidade à insulina. Tais evidências sugerem que futuras estratégias preventivas para a readaptação à gravidade terrestre podem precisar de ajustes baseados em características biológicas distintas.

Os resultados reforçam que a gravidade é um elemento essencial para a manutenção do equilíbrio fisiológico, influenciando funções automáticas do cotidiano. A redução desse estímulo provoca ajustes rápidos que comprometem a estabilidade postural e a saúde óssea. Além de auxiliar no planejamento de missões espaciais, o estudo contribui para a compreensão de quadros clínicos de imobilidade prolongada na Terra, consolidando a *dry immersion* como ferramenta para antecipar riscos e testar contramedidas fisiológicas.

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