Ciência

Estudo projeta mais de 39 milhões de mortes por resistência antimicrobiana entre 2025 e 2050

21 de Abril de 2026 às 16:28

Estudo publicado na revista The Lancet indicou que bactérias resistentes a antibióticos causaram 1,27 milhão de mortes diretas e associaram-se a outras 4,95 milhões de fatalidades em 2019. A OMS classifica a situação como crise global impulsionada pelo uso inadequado de medicamentos e práticas na agropecuária. Projeções apontam para mais de 39 milhões de óbitos diretos entre 2025 e 2050

Um estudo abrangente conduzido por um consórcio internacional de cientistas e publicado na revista The Lancet em 2022 quantificou o impacto da resistência antimicrobiana na saúde global. Os dados revelaram que, em 2019, bactérias resistentes a antibióticos causaram diretamente cerca de 1,27 milhão de mortes, estando associadas a outras 4,95 milhões de fatalidades no mesmo período. O levantamento consolidou o fenômeno como uma das principais ameaças médicas do século XXI.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a situação como uma crise global crescente. O problema reside na evolução de microrganismos que, por meio de mutações naturais ou da transferência horizontal de genes, tornam-se capazes de sobreviver a medicamentos que anteriormente os eliminavam. Esse processo é acelerado pelo uso inadequado de antibióticos, incluindo a interrupção precoce de tratamentos, a aplicação de doses incorretas ou a prescrição sem necessidade clínica, o que favorece a sobrevivência e a multiplicação de populações bacterianas resistentes.

O impacto dessa resistência compromete a base da medicina contemporânea, elevando riscos em procedimentos que dependem de antibióticos para prevenir infecções, como partos, quimioterapias, transplantes e cirurgias complexas. Infecções anteriormente simples de tratar, a exemplo de feridas comuns, infecções urinárias e pneumonia, podem se tornar incuráveis. Esse cenário projeta um retrocesso ao início do século XX, período anterior à descoberta da penicilina, resultando em internações prolongadas, aumento de custos hospitalares e maiores taxas de mortalidade, especialmente em países com acesso limitado a fármacos de última linha.

A progressão da resistência também é impulsionada por fatores externos ao ambiente hospitalar. Na pecuária e agricultura, o uso de antibióticos para promover o crescimento rápido de animais cria ambientes propícios ao surgimento de bactérias resistentes, que atingem humanos via contato direto, água ou cadeia alimentar. Somam-se a isso os resíduos industriais e o descarte inadequado de medicamentos, que contaminam ecossistemas naturais e selecionam bactérias resistentes.

Atualmente, existe um desequilíbrio entre a evolução bacteriana e a capacidade de resposta científica, pois o desenvolvimento de novos antibióticos não acompanha a velocidade da resistência. O pipeline de inovação é limitado, visto que a criação de novos fármacos é demorada, dispendiosa e menos atrativa economicamente para a indústria farmacêutica.

A natureza gradual da resistência antimicrobiana a torna uma ameaça silenciosa, diferentemente de pandemias com sintomas imediatos. Essa característica dificulta a mobilização política e a percepção pública de urgência, embora as projeções da The Lancet indiquem que, entre 2025 e 2050, podem ocorrer mais de 39 milhões de mortes diretas caso não haja mudanças nas políticas de uso e no desenvolvimento de tratamentos.

Para enfrentar esse cenário, a comunidade científica investiga alternativas aos antibióticos tradicionais, como o uso de CRISPR para edição genética e a aplicação de bacteriófagos, vírus que destroem bactérias específicas. Além da busca por novos mecanismos de ação medicamentosa, a OMS aponta que a contenção do avanço depende fundamentalmente do investimento em pesquisa, de políticas de uso racional de medicamentos e da conscientização da população.

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