Ciência

Estudos sugerem que rampas em espiral e contrapesos internos ergueram a pirâmide de Quéops

15 de Abril de 2026 às 19:05

Duas pesquisas de 2026 propõem métodos para a edificação da pirâmide de Quéops. Uma sugere rampas em espiral nas bordas externas e a outra indica o uso de contrapesos em passagens internas. Ambas as teses baseiam-se nos Papiros de Wadi al-Jarf

Dois estudos publicados em 2026 em periódicos científicos de alto impacto propõem soluções distintas para o enigma da construção da pirâmide de Quéops, partindo da premissa de que os egípcios utilizaram apenas as ferramentas disponíveis na época. A estrutura, erguida por volta de 2.560 a.C., possui 147 metros de altura e uma base de 230 metros de lado, totalizando 2,3 milhões de blocos de pedra. Para concluir a obra dentro do reinado de aproximadamente 27 anos, a logística exigia o posicionamento de um bloco a cada poucos minutos, diariamente, durante décadas.

Uma das pesquisas, publicada na npj Heritage Science do grupo Springer Nature, foi conduzida pelo engenheiro Vicente Luis Rosell Roig, da Universidade Politécnica de Valência. Por meio de um modelo computacional tridimensional, o pesquisador testou a hipótese de rampas embutidas nas próprias arestas da pirâmide. O sistema consistiria em faixas abertas nas bordas externas de cada face, funcionando como rampas em espiral ascendente. À medida que a construção subia, as seções inferiores eram preenchidas com blocos de acabamento de cima para baixo, ocultando as rampas ao final do processo.

O algoritmo desenvolvido por Rosell Roig, que determinou a largura das faixas, a inclinação e o ritmo de colocação das pedras, indica que a obra poderia ter sido finalizada entre 13,8 e 20,6 anos. Esse intervalo é compatível com a janela de 20 a 27 anos estimada por egiptólogos, considerando as etapas de planejamento e transporte. A geometria desse modelo coincide com anomalias detectadas pelo projeto ScanPyramids, que utiliza raios cósmicos para mapear a estrutura; o desgaste nos cantos sudeste e o corredor na face norte correspondem aos pontos de maior fluxo de blocos previstos no modelo.

O estudo reforça que a limitação tecnológica do Antigo Reinado — a ausência de rodas, polias compostas e ferramentas de ferro — não impediu a obra, já que o modelo utiliza parâmetros baseados em alavancas, cordas, cinzéis de cobre, barcaças no Nilo e trenós lubrificados com água. Para garantir a transparência e a verificação independente, o código computacional e os dados foram disponibilizados na plataforma Zenodo.

Paralelamente, um segundo estudo publicado na revista Nature sugere que a elevação dos blocos ocorreu por meio de estruturas internas. A proposta indica que o Corredor Ascendente e a Grande Galeria — espaço com 47 metros de comprimento e 8,5 metros de altura, cujas paredes se estreitam no topo — serviam como rampas inclinadas para sistemas de contrapeso. Nesse mecanismo, cordas conectadas a pesos deslizariam por essas passagens, funcionando como uma polia primitiva que multiplicaria a força disponível.

Essa abordagem resolve a questão do posicionamento de blocos de granito de até 60 toneladas a 70 metros de altura, na câmara do rei, tarefa que modelos baseados apenas em rampas externas não conseguiram comprovar como viável com a mão de obra da época.

Ambas as teorias encontram suporte nos Papiros de Wadi al-Jarf, descobertos em 2013. Os documentos, escritos pelo inspetor Merer há mais de 4,5 mil anos, detalham a logística de transporte de blocos de calcário via barcaças, aproveitando as cheias do Nilo.

A evidência arqueológica também redefine a natureza da força de trabalho. Escavações de vilas com dormitórios, padarias, cervejarias e atendimento médico desmentem a tese de que a pirâmide foi construída por escravizados. Registros em túmulos revelam que os operários se organizavam em equipes hierarquizadas, com escalas de folga e pagamentos, identificando-se com orgulho em grupos como os “Amigos de Quéops”.

A complexidade administrativa do Antigo Reinado é considerada tão relevante quanto a própria obra. Atualmente, a aplicação de técnicas de inteligência artificial e reconhecimento de padrões industriais no modelo de Rosell Roig demonstra que a engenharia moderna consegue extrair aprendizados de soluções logísticas resolvidas há 45 séculos.

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