Ciência

Resíduos humanos e animais nos Estados Unidos podem substituir grande parte dos fertilizantes sintéticos

15 de Abril de 2026 às 16:24

Pesquisa da Universidade Cornell, publicada na Nature Sustainability, aponta que resíduos humanos e animais nos Estados Unidos podem prover 102% do nitrogênio e 50% do fósforo exigidos pela agricultura. O montante financeiro desses insumos é de US$ 5,7 bilhões, demandando a instalação de unidades locais de processamento devido à distribuição geográfica dos dejetos

Um estudo da Universidade Cornell revelou que os resíduos humanos e animais nos Estados Unidos concentram nutrientes agrícolas capazes de substituir, teoricamente, uma parcela significativa dos fertilizantes sintéticos utilizados no país. Esse volume de recursos inexplorados possui um potencial econômico estimado em US$ 5,7 bilhões, considerando os preços atuais.

A pesquisa detalha que tais dejetos poderiam suprir 102% da demanda de nitrogênio e 50% da de fósforo de toda a indústria agrícola norte-americana. A substituição desses insumos reduziria a dependência de produtos sintéticos, cuja fabricação é intensiva em emissões de gases de efeito estufa e consome alta quantidade de energia. Chuan Liao, professor assistente e autor correspondente do trabalho, associa a vulnerabilidade do modelo atual à insegurança alimentar provocada por tensões internacionais e aponta que o uso excessivo de fertilizantes sintéticos contribui para a poluição hídrica.

Embora os resíduos sejam ricos em potássio, fósforo e nitrogênio — os três nutrientes essenciais para o crescimento das plantas —, a distribuição geográfica impede o aproveitamento pleno. A produção de dejetos está concentrada em centros de criação animal e cidades densamente povoadas, especialmente nos polos pecuários do Oeste e nos corredores urbanos do Nordeste. Em contrapartida, a demanda agrícola é maior no Meio-Oeste e nas Grandes Planícies, região que atua como o celeiro do país e depende de fertilizantes importados e caros.

Para evidenciar esse descompasso, a equipe utilizou mapeamento de alta resolução em blocos de 10 quilômetros. Os dados mostraram que a desigualdade na distribuição de nutrientes acompanha padrões sociais, afetando municípios socioeconomicamente desfavorecidos. Nessas áreas, a sobrecarga ambiental ocorre em duas frentes: regiões com excesso de resíduos sofrem com florações tóxicas em cursos d'água, enquanto áreas com deficiência nutricional enfrentam a degradação da saúde do solo devido ao uso de químicos. Para Liao, a correção desse fluxo representaria um avanço em justiça ambiental.

A implementação desse sistema exige o processamento dos resíduos, já que o alto teor de água e a presença de patógenos impedem a aplicação direta no campo. A estratégia defendida é a criação de centros descentralizados para converter os dejetos em líquidos concentrados ou grânulos secos, reduzindo custos e volumes de transporte para fazendas próximas.

A análise indica que essa abordagem localizada seria eficiente, permitindo a recuperação e uso imediato de 46% do fósforo e 37% do nitrogênio no próprio local de geração. Quanto ao excedente, mais da metade poderia ser redistribuída para regiões vizinhas com impacto econômico e ambiental mínimo, evitando a necessidade de sistemas de transporte de longa distância.

O plano estratégico visa transformar resíduos em ativos agrícolas para fortalecer a segurança alimentar nacional e mitigar danos ambientais. A tecnologia para esse aproveitamento já existe, porém a transição depende da criação de infraestrutura e governança para integrar os setores de energia, resíduos e agricultura. Os resultados da pesquisa foram publicados em 15 de abril na revista Nature Sustainability.

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