Estudo revela que cometa apresenta composição de água semelhante à dos oceanos da Terra
Uma equipe coordenada pelo Centro Goddard da NASA estudou a presença de água comum e pesada no cometa 12P/Pons-Brooks utilizando o Observatório ALMA e o Telescópio Infravermelho da NASA. Divulgado em agosto de 2025 pela Nature Astronomy, o estudo registrou a razão D/H de (1,71 ± 0,44) × 10⁻⁴. Esse valor assemelha-se à composição hídrica dos oceanos da Terra
Uma equipe internacional de pesquisadores, sob a liderança de Martin Cordiner, do Centro Goddard da NASA, realizou o primeiro mapeamento da distribuição espacial de água comum e água pesada na coma de um cometa. O estudo, publicado na revista Nature Astronomy em agosto de 2025, analisou o cometa 12P/Pons-Brooks e trouxe novos elementos para a compreensão sobre a origem dos oceanos da Terra.
A investigação utilizou a interferometria do Observatório ALMA, composto por 66 radiotelescópios no deserto do Atacama, no Chile, em conjunto com observações no infravermelho do Telescópio Infravermelho da NASA (IRTF), no Havaí. Essa combinação técnica permitiu distinguir se as moléculas de água (H₂O) e de água semi-pesada (HDO) provinham de reações químicas na nuvem de gás ao redor do objeto ou se emanavam diretamente do núcleo sólido. Os mapas resultantes confirmaram que ambas as moléculas originaram-se do gelo primordial, congelado há 4,5 bilhões de anos no interior do cometa.
Essa precisão metodológica tornou a medição da razão entre deutério e hidrogênio (razão D/H) mais confiável. O resultado apontou um valor de (1,71 ± 0,44) × 10⁻⁴, a menor marca já registrada em um cometa do tipo Halley e um índice compatível com a composição da água nos oceanos terrestres. A descoberta reabre a possibilidade de que cometas dessa família tenham contribuído para a formação das reservas hídricas da Terra, contrariando a tendência científica estabelecida em 2014, quando a missão Rosetta da ESA detectou, no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, uma quantidade de deutério três vezes superior à dos oceanos terrestres.
O 12P/Pons-Brooks é classificado como um cometa criovulcânico, funcionando como um vulcão de gelo espacial. Com um núcleo de aproximadamente 34 quilômetros de diâmetro, o objeto pertence à família Halley, cujos membros se formaram em regiões remotas como o Cinturão de Kuiper ou a Nuvem de Oort. O cometa apresenta uma órbita de 71 anos, tendo passado pelo periélio — o ponto mais próximo do Sol — em 21 de abril de 2024. Sua próxima passagem está prevista para 2095.
O objeto ganhou a alcunha de “Cometa Diabo” no verão de 2023, após astrônomos húngaros registrarem que ele brilhou 100 vezes em uma única noite, saltando da magnitude 16,6 para 11,6. Durante esse período, a coma esférica se deformou em formato de ferradura com dois pontos proeminentes de gás, assemelhando-se a chifres. Entre junho de 2023 e abril de 2024, foram documentadas 14 erupções.
A análise do 12P/Pons-Brooks insere-se no debate sobre como a Terra, que nasceu seca devido às altas temperaturas de sua região de formação no Sistema Solar, adquiriu 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água líquida. A teoria predominante indica que esse volume foi transportado por colisões de asteroides, cometas ou meteoritos há cerca de 4 bilhões de anos. Embora asteroides carbonáceos continuem como fortes candidatos, a assinatura química do 12P/Pons-Brooks sugere que cometas do tipo Halley também podem ter sido fontes significativas.
Para aprofundar esses achados, a ESA planeja lançar em 2029 a missão Comet Interceptor, que analisará a composição de um cometa dinamicamente primitivo, sem as interferências de observações à distância. Até lá, a metodologia aplicada ao 12P/Pons-Brooks deverá ser repetida em outros cometas da mesma família que se aproximem do Sol nos próximos anos.