Ciência

Poluição do ar reduz a capacidade olfativa de forma progressiva e silenciosa, aponta estudo

18 de Abril de 2026 às 09:21

Estudo publicado na Scientific Reports indica que a poluição atmosférica reduz a capacidade olfativa devido a danos nas células receptoras nasais. A pesquisa com 711 participantes em 10 regiões globais revelou que a perda sensorial se acumula com o envelhecimento. Substâncias como ozônio, dióxido de nitrogênio e material particulado fino causam inflamação crônica na mucosa nasal

A exposição prolongada à poluição atmosférica está associada a uma redução progressiva e silenciosa da capacidade olfativa, conforme aponta um estudo publicado em 16 de dezembro de 2024 na revista Scientific Reports, do grupo Nature. A pesquisa analisou 711 participantes urbanos em 10 regiões globais, cruzando dados de saúde com os níveis de poluentes locais, e concluiu que o impacto negativo na função do olfato tende a se acumular com o envelhecimento, mesmo em locais onde a poluição excede apenas levemente os padrões da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O processo ocorre por meio de danos nas células receptoras localizadas na parte superior da cavidade nasal, que captam moléculas odoríferas para enviar sinais ao cérebro. Substâncias como ozônio (O₃), dióxido de nitrogênio (NO₂) e material particulado fino (PM2.5) provocam inflamação crônica da mucosa nasal. Partículas ultrafinas podem, inclusive, penetrar profundamente nas estruturas nasais e atingir vias neurais, expandindo o dano para além da área local e afetando conexões neurológicas.

Essa perda sensorial é caracterizada pela lentidão, o que gera um fenômeno de adaptação sensorial: o cérebro se ajusta gradualmente à diminuição da sensibilidade, criando uma falsa percepção de normalidade. Por não haver sintomas abruptos ou dor, o comprometimento muitas vezes só é notado em estágios avançados.

A redução do olfato compromete a detecção de riscos imediatos, como fumaça, vazamentos de gás e alimentos deteriorados. Além disso, a perda afeta a percepção do sabor dos alimentos, o que pode alterar hábitos alimentares e causar déficits nutricionais. Há ainda investigações em curso sobre a relação entre esse declínio sensorial, o declínio cognitivo e doenças neurodegenerativas.

A vulnerabilidade é maior em moradores de grandes centros urbanos com tráfego intenso e em profissionais com longa exposição ao ar externo, como entregadores, motoristas e trabalhadores da construção civil. Crianças, devido ao sistema respiratório e neurológico em desenvolvimento, e idosos, cujos processos de perda sensorial podem ser acelerados, são grupos especialmente sensíveis.

O cenário é agravado pela urbanização e pelo aumento da frota de veículos. De acordo com a OMS, em ficha técnica de 24 de outubro de 2024, mais de 90% da população mundial respira ar acima dos limites recomendados. A entidade classifica a poluição do ar como um dos principais riscos ambientais à saúde; em 2019, a poluição externa foi associada a 4,2 milhões de mortes prematuras, número que sobe para 6,7 milhões ao somar a poluição doméstica, impactando sistemas respiratório e cardiovascular.

Apesar da base científica consistente, a perda olfativa é subnotificada por não integrar check-ups rotineiros e por ser ofuscada por doenças respiratórias mais visíveis. Atualmente, a ciência busca compreender a reversibilidade desses danos, a influência específica de cada poluente e formas de mitigar os efeitos por meio de intervenções individuais e políticas públicas.

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