Satélite SWOT realiza o primeiro mapeamento de alta precisão de tsunami em áreas de subducção
O satélite SWOT, parceria entre NASA e CNES, mapeou a deformação da superfície do mar após um terremoto de magnitude 8,8 em Kuril-Kamchatka. A missão monitorou uma área de 120 quilômetros de largura, identificando a dispersão de ondas e ajustando a estimativa da ruptura sísmica para 400 quilômetros
O satélite SWOT, fruto de uma cooperação entre a NASA e a agência espacial francesa CNES, realizou o primeiro rastreamento espacial em alta resolução de um tsunami de grande magnitude originado em uma zona de subducção. A observação ocorreu cerca de 70 minutos após um terremoto de magnitude 8,8 atingir a região de Kuril-Kamchatka, permitindo que o instrumento mapeasse a deformação da superfície do mar em vez de capturar imagens convencionais.
Diferente de missões altimétricas anteriores, que registravam apenas faixas estreitas do oceano, o SWOT monitorou uma área com aproximadamente 120 quilômetros de largura. Essa amplitude possibilitou a identificação da forma da frente de onda e das perturbações subsequentes. Em mar aberto, a crista principal apresentou uma altura superior a 45 centímetros, variação que, embora pequena em números absolutos, indica o deslocamento de volumes massivos de água capazes de se amplificar ao atingirem regiões costeiras rasas.
Os dados revelaram que a propagação da onda foi mais complexa do que previam os modelos simplificados. O satélite detectou um campo de ondas com dispersão e ondulações secundárias atrás da crista principal, evidenciando que a energia do tsunami não avançou de forma única ou regular. De acordo com estudo publicado na revista The Seismic Record, simulações que consideraram esse efeito de dispersão foram mais precisas na reprodução do padrão observado pelo SWOT. Essa descoberta impacta a modelagem matemática de tsunamis, influenciando a precisão do cálculo do horário de chegada das ondas, a intensidade entre cristas sucessivas e a dinâmica de entrada da água em portos e baías.
A análise do evento também permitiu revisar as características do sismo. Ao cruzar as informações do SWOT com dados de três boias do sistema DART, os pesquisadores ajustaram a estimativa da ruptura sísmica na interface tectônica, que passou de 300 quilômetros para cerca de 400 quilômetros. O estudo calculou ainda um pico de soerguimento de aproximadamente 4 metros, concluindo que a combinação de dados do tsunami com a deformação sísmico-geodésica oferece a reconstrução mais fiel do evento.
A investigação destacou que o potencial de um tsunami está atrelado à forma como a falha se rompe, e não apenas à magnitude do terremoto. No episódio de 2025, a ruptura ocorreu em uma profundidade maior na interface de subducção, sem evidências de ruptura rasa junto à trincheira oceânica. Essa geometria difere do terremoto histórico de 1952, embora ambos tenham atingido segmentos da mesma megafalha; tal diferença explica por que o evento recente, apesar do amplo alcance no Pacífico, teve menor impacto que o de 1952.
Classificado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) como um dos seis maiores sismos da era instrumental, o terremoto de Kamchatka foi acompanhado por réplicas intensas. A NOAA registrou, por meio do sistema DART, uma amplitude máxima de 0,85 metro em uma das boias, um dos maiores valores já medidos por esse dispositivo.
Apesar do avanço científico na compreensão da física das ondas e na calibração de ferramentas de risco costeiro, o uso do SWOT possui limitações operacionais. O satélite é voltado para a análise pós-evento e aprimoramento de modelos, não substituindo os sistemas de alerta imediato baseados em marégrafos, sismologia e boias. Documentos técnicos da missão indicam que o processamento dos dados possui uma latência de três a cinco dias, o que restringe sua aplicação atual à reconstrução detalhada de grandes desastres naturais.